quinta-feira, 14 de junho de 2007

O homem que pensava demais

Andava sozinho. Não porque ninguém gostava dele. Não, pelo contrário. Os amigos sempre ligavam. Tinha uma fila de meninas se atirando aos seus pés. Era muto bonito. E inteligente. Os familiares o admiravam. Queria andar sozinho. Sempre. Achava que sozinho conseguia pensar melhor. Sim, as idéia fluíam. Quando se está acompanhado, não se consegue processar o raciocínio numa linha constante e lógica. Esta linha sofre ruídos, é fragmentada, perde força ao longo do caminho. Quando se está acompanhado por outras pessoas, elas não lhe deixam pensar, não lhe dão chance de estar acompanhado por si mesmo também. É como se apenas a carcaça estivesse ali, ouvindo e proferindo respostas prontas, previsíveis. Quando se está sozinho, se está acompanhado de si mesmo. Alma e corpo funcionam juntos, sincronizadamente. Era assim que ele pensava.
Preferia os livros às pessoas. Pois os livros, mais ainda, o estimulavam. E as pessoas, ao contrário, o bloqueavam. A música também não lhe era tragável. Filmes, talvez, por se assemelharem mais aos livros. Mas o que ele realmente prezava era o silêncio.
Durante o dia, gostava de andar sozinho em parques, principalmente os que tinham muitas árvores. Apreciava a boa companhia... de si mesmo, à noite. Morava com os pais, já bem velhos. Os amigos o tinham como uma espécie de herói, talvez por ainda não terem se livrado das imagens do tempo da faculdade. Aquele rapaz quieto, estudioso, que sob o efeito de poucos goles de cerveja, nem parecia o mesmo. Bebia. Mas não fumava. Detestava cigarros.
Aquele que, sem esforço algum, poderia ter a garota que quisesse. Com apenas uma exceção: Manuela.
Manuela estava longe de ser a garota mais bonita com quem já saiu. Mas havia algo em seus trejeitos e seu cabelo longo e escuro que o fascinava. Ela não era previsível como todas as outras. Era inconstante. Tinha personalidade. Adorava livros e filmes. Só acompanhava a seção de esportes nos jornais. Chico Buarque, Bee Gees e Martinho da Vila. Não fumava. Bebia demais. Falava pouco. Não desperdiçava palavras. Só se manifestava quando tinha algo importante a dizer. Gostava de gatos.
Manuela foi morar na Indonésia, sem saber que era tão importante para alguém. Foi, justamente, por achar que ninguém se importava com ela.
Desde então, ele parou de beber. Calou-se, mais ainda. Não agüentava o barulho atrapalhando suas reflexões. Não suportava interrupções, perguntas que fizessem com que ele saísse do transe e retornasse à realidade, ao lugar onde estava aquela pessoa chata, que não o deixava sonhar com Manuela. Manuela, livros, silêncio.
Um dia, resolveu ousar. Foi a uma loja de CD´s. Pediu para escutar o melhor CD dos Bee Gees. Queria experimentar. Como se fosse uma droga perigosa, queria ter certeza antes de comprar o disco. Gostou. Gostou demais. Aquilo era realmente uma droga perigosa, pensava. Aquilo lhe trazia uma sensação de paz, só vivida antes com Manuela. Gostou da música, dos acordes, do ritmo e da lembrança daquela garota da faculdade. O som parecia trazer Manuela de volta.
Percebeu a presença de alguém ao seu lado. Inicialmente, pensou ser o vendedor. Olha para o lado. Era Manuela. Enorme sorriso no rosto. Cabelos vermelhos. Abraço forte. Entusiasmo. Espanto. “Ei, o que tu estás fazendo aqui? Tu nem gostas de Bee Gees. Eu lembro que na faculdade...”.
Ele deu uma desculpa e foi embora. Passos rápidos. Não queria mais vê-la. Ela falava demais! Não queria falar com ela. Queria pensar nela. Só isso. Queria lembrar. Sonhar acordado. Ela o atrapalhava.
Foi até o bar mais próximo. Pediu uma cerveja. Acendeu um cigarro.

6 comentários:

Carolina Tavaniello disse...

O personagem parece viver uma crise existencial.
Legal o texto. As vezes e melhor mesmo apenas pensar e nao conviver com as pessoas. A falta de acentos se deve ao MAC da PUC hehe
Beijos

ijreis disse...

Mto bom!!
Gostei mto do texto, parabéns!
Final mto bom!

Bjoo

Samir Oliveira disse...

Nossa, que tensão ein! Me prendeu e até esqueci que estava no cicom, eheheh...

Vai direto pra piauí :)

beijos

Fernando Teixeira disse...

ô guria heim! Bah, agora sim...Alto nível! Adorei mesmo o texto. Otima reflexão e narrativa, não esperava um final assim, na realidade, nao esperava final algum...
bah, sinceramente, so mais esse blog aqui do que o anarquia..heheh

até me inspiraste em escrever alguma cronica ou algo assim...
mas talvez em outra oportunidade
hehehhe
t cuida
bjo

Leonardo Halfen disse...

Excelente texto!! :-)

Thiago Leite disse...

Me indentifiquei...